A lombalgia afeta 80% dos adultos em algum momento da vida. Na maioria dos casos, tem origem muscular e resolve espontaneamente em 4 a 6 semanas com tratamento conservador. Este guia apresenta causas, diagnóstico e tratamentos com base nas diretrizes mais recentes.
O que é dor lombar?
A dor lombar — tecnicamente denominada lombalgia — é definida como dor localizada na região entre a margem inferior das costelas e as pregas glúteas, podendo ou não irradiar para os membros inferiores. É a segunda causa mais frequente de consultas médicas no Brasil e a principal causa de afastamento do trabalho em adultos em idade produtiva.
Estima-se que 80% dos adultos vivenciarão pelo menos um episódio significativo de dor lombar ao longo da vida. A maioria dos casos — cerca de 85% — é classificada como lombalgia inespecífica, sem causa estrutural identificável por exames complementares, e tende a resolver espontaneamente em 4 a 6 semanas.
A lombalgia é classificada por duração em: aguda (menos de 6 semanas), subaguda (6 a 12 semanas) e crônica (mais de 12 semanas). Cerca de 10 a 20% dos episódios agudos evoluem para cronicidade, com impacto significativo sobre qualidade de vida e capacidade funcional.
Causas e estruturas envolvidas
A coluna lombar é composta por cinco vértebras (L1 a L5), separadas por discos intervertebrais, articuladas pelas facetas posteriores e estabilizadas por uma rede de ligamentos e músculos. Qualquer uma dessas estruturas pode ser fonte de dor:
- Muscular e ligamentar: distensão, contratura ou microlesão dos músculos paravertebrais (iliocostal, longuíssimo, multífido) e ligamentos. Causa mais frequente da dor aguda. Tende a ter início súbito, relacionado a esforço ou movimento brusco, e piora com o movimento.
- Discal: degeneração, protrusão ou herniação do disco intervertebral. Pode causar dor localizada ou irradiada para os membros inferiores quando há compressão nervosa (hérnia de disco com ciatalgia).
- Articular facetária: artrose ou sinovite das articulações interapofisárias. Dor tipicamente unilateral, piora com extensão da coluna, melhora com flexão.
- Estenose do canal vertebral: estreitamento do canal espinhal por hipertrofia das estruturas ósseas e ligamentares. Causa claudicação neurogênica — dor e fraqueza nas pernas ao caminhar que melhora ao sentar.
- Espondilolistese: deslizamento de uma vértebra sobre a inferior, causando instabilidade e dor que piora em pé ou ao caminhar.
- Causas sistêmicas (bandeiras vermelhas): neoplasias, infecções (espondilodiscite), fraturas por osteoporose, espondiloartrites inflamatórias.
Sintomas e apresentação clínica
Os sintomas variam conforme a estrutura acometida e a presença ou ausência de compressão nervosa:
- Lombalgia mecânica inespecífica: dor localizada na região lombar, que piora com o movimento e melhora com repouso. Pode haver contratura palpável da musculatura paravertebral.
- Lombalgia com radiculopatia (com irradiação): dor que se estende pela nádega, coxa e perna, seguindo o trajeto de uma raiz nervosa. Frequentemente acompanhada de formigamento ou dormência.
- Dor articular facetária: dor paravertebral unilateral que piora ao acordar e com a extensão da coluna, e que pode irradiar para a nádega sem descer além do joelho.
- Claudicação neurogênica: dor e cansaço nas pernas ao caminhar, com melhora típica ao sentar ou inclinar o tronco para frente.
Bandeiras vermelhas — sinais de alerta
Perda de controle urinário ou intestinal; fraqueza progressiva nos membros inferiores; dormência na região genital ou anal; febre associada à dor lombar; perda de peso inexplicada; dor que piora progressivamente à noite sem relação com posição; início após trauma significativo; história de câncer ou imunossupressão; dor em paciente com menos de 20 ou mais de 55 anos sem episódio anterior.
Diagnóstico
Para a maioria dos casos de lombalgia aguda inespecífica, exames de imagem não são necessários nas primeiras 4 a 6 semanas, exceto na presença de bandeiras vermelhas. Essa recomendação consta nas principais diretrizes internacionais (NICE, American College of Physicians) e visa evitar superdiagnóstico e tratamentos desnecessários.
Quando indicados, os exames mais utilizados são:
- Ressonância magnética: padrão-ouro para avaliação de discos, raízes nervosas e canal vertebral.
- Radiografia: avaliação inicial de alinhamento, instabilidade e afecções ósseas.
- Tomografia computadorizada: complementar à RM em casos específicos.
- Cintilografia e PET-CT: pesquisa de metástases ou infecção.
- Hemograma, VHS, PCR: investigação de causa inflamatória ou infecciosa.
Tratamento baseado em evidências
Fase aguda (primeiras 2 a 6 semanas)
- Manutenção da atividade dentro dos limites da dor — o repouso absoluto não é recomendado e retarda a recuperação.
- Analgésicos (paracetamol, dipirona) como primeira linha; AINEs por curtos períodos quando há componente inflamatório.
- Calor local para alívio do espasmo muscular.
- Reasseguramento: na maioria dos casos, a dor melhora completamente sem necessidade de intervenção invasiva.
Fase crônica (mais de 12 semanas)
- Exercício físico: a intervenção com maior nível de evidência para lombalgia crônica. Exercícios de fortalecimento do core, pilates, yoga e atividades aeróbicas são amplamente recomendados.
- Fisioterapia: combinação de exercícios, mobilização manual e educação em dor.
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC): eficaz para pacientes com componente psicossocial significativo (catastrofização, kinesiofobia).
- Intervenções minimamente invasivas: infiltrações facetárias, bloqueios de nervos, radiofrequência — para causas articulares específicas.
- Cirurgia: indicada em minoria dos casos, principalmente estenose grave com claudicação incapacitante ou instabilidade vertebral.
Prevenção e prognóstico
O prognóstico da lombalgia aguda é favorável: 60% dos pacientes melhoram em 1 semana e 90% em 6 semanas. A recorrência, porém, é comum — até 70% dos pacientes terão novo episódio em 1 ano. A prevenção eficaz envolve manter peso corporal saudável, praticar atividade física regular com ênfase no fortalecimento do core, adotar ergonomia adequada no trabalho e evitar o tabagismo.
Revisor técnico do Atlas da Coluna. Todo conteúdo é avaliado quanto à precisão clínica e adequação das orientações antes da publicação.