A hérnia de disco ocorre quando o núcleo pulposo desloca-se para fora do disco intervertebral e comprime raízes nervosas. 90% dos casos melhoram sem cirurgia em 6 a 12 semanas com fisioterapia e tratamento farmacológico adequado.
O que é hérnia de disco?
A hérnia de disco é uma condição em que o núcleo pulposo — material gelatinoso localizado no interior do disco intervertebral — desloca-se para fora do seu compartimento normal e pode comprimir raízes nervosas adjacentes ou, em casos mais graves, a própria medula espinhal.
Os discos intervertebrais atuam como amortecedores entre as vértebras, absorvendo cargas e permitindo a mobilidade da coluna. Cada disco é composto por um anel fibroso externo resistente, o annulus fibrosus, e por um núcleo de consistência gelatinosa no interior, o nucleus pulposus. Quando o anel se fistura ou se rompe em decorrência de degeneração, esforço excessivo ou trauma, o núcleo pode projetar-se para o canal vertebral.
Estima-se que 2 a 3% da população desenvolva hérnia de disco sintomática ao longo da vida, com pico de incidência entre os 30 e os 50 anos. Vale ressaltar que hérnias de disco assintomáticas são extremamente comuns: estudos de ressonância magnética demonstram protrusões em até 40% dos adultos sem qualquer queixa.
Tipos e classificação por grau de severidade
A classificação mais utilizada na prática clínica divide as hérnias em quatro categorias, em ordem crescente de gravidade:
- Protrusão focal: o anel fibroso está íntegro, mas o disco projeta-se além dos limites vertebrais em menos de 25% de sua circunferência. Frequentemente assintomática ou associada a dor leve.
- Extrusão: o material nuclear rompe o anel fibroso e projeta-se para o canal vertebral, mantendo continuidade com o disco de origem. Pode causar compressão nervosa e dor intensa irradiada.
- Sequestro discal: um fragmento do núcleo se separa completamente do disco e migra pelo canal vertebral. Apresenta maior risco de déficit neurológico significativo.
- Hérnia contida vs. não contida: distinção adicional que considera se o ligamento longitudinal posterior ainda envolve o material herniado, com implicações para o planejamento terapêutico.
Por localização, as hérnias lombares respondem por aproximadamente 90% dos casos, seguidas pelas cervicais (10%) e, raramente, pelas torácicas.
Sintomas por região da coluna
Hérnia lombar — segmentos L4-L5 e L5-S1
Os segmentos L4-L5 e L5-S1 são os mais acometidos e costumam apresentar:
- Dor lombar de intensidade variável, que piora ao sentar, tossir, espirrar ou realizar a manobra de Valsalva
- Dor irradiada para a nádega, face posterior da coxa, panturrilha e pé — a denominada ciatalgia
- Formigamento, dormência ou sensação de queimação ao longo do trajeto do nervo
- Fraqueza na dorsiflexão do pé (dificuldade de elevar a ponta do pé), indicando comprometimento de L4-L5
- Redução ou abolição do reflexo aquileu (L5-S1) ou patelar (L3-L4)
Perda de controle urinário ou intestinal, anestesia em sela (região perineal), fraqueza bilateral nos membros inferiores. Esses sinais configuram emergência neurocirúrgica e exigem atendimento hospitalar imediato, pois o atraso no tratamento pode resultar em sequelas permanentes.
Hérnia cervical — segmentos C5-C6 e C6-C7
- Dor cervical que irradia para o ombro, braço e mão, seguindo o trajeto da raiz comprometida
- Formigamento ou parestesias nos dedos correspondentes ao dermátomo afetado
- Fraqueza na preensão palmar ou na abdução do ombro
- Nos casos com comprometimento medular (mielopatia cervical): marcha instável, espasticidade, falta de coordenação fina nas mãos
Diagnóstico: exames e interpretação dos resultados
O diagnóstico começa pela anamnese detalhada e exame neurológico, que inclui avaliação de reflexos, força muscular por grupos e sensibilidade por dermátomos. A manobra de Lasègue — elevação da perna estendida — é positiva em mais de 90% das hérnias lombares com compressão de raiz nervosa.
Os exames de imagem confirmam a hipótese clínica e orientam o planejamento terapêutico:
- Ressonância magnética (RM): exame padrão-ouro. Visualiza o disco, a compressão nervosa e o grau de herniação sem radiação ionizante. Indicada como primeira escolha quando há déficit neurológico ou dor refratária.
- Tomografia computadorizada (TC): útil quando a RM é contraindicada ou para melhor avaliação de estruturas ósseas e calcificações do disco.
- Radiografia simples: não visualiza discos ou nervos, mas auxilia na avaliação de alinhamento vertebral, instabilidade dinâmica e descarte de outras patologias ósseas.
- Eletroneuromiografia (ENMG): avalia a função das raízes nervosas e identifica o nível de comprometimento. Especialmente útil em quadros atípicos ou quando há discordância entre clínica e imagem.
A presença de hérnia de disco na ressonância magnética não significa necessariamente que ela seja a causa dos sintomas. Imagens devem ser sempre correlacionadas com o quadro clínico. Muitos pacientes com hérnias evidentes em exames são completamente assintomáticos.
Tratamento conservador: a primeira linha de abordagem
O tratamento conservador é eficaz em mais de 90% dos casos e deve ser a primeira abordagem, exceto nas situações de emergência já descritas. As principais modalidades incluem:
Fisioterapia
Pilar central do tratamento. Inclui técnicas de analgesia (TENS, ultrassom terapêutico, calor profundo), exercícios de estabilização segmentar da coluna, mobilização e manipulação vertebral, tração lombar e reeducação postural. O programa deve ser individualizado conforme o nível acometido e a tolerância do paciente.
Tratamento farmacológico
- Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs): ibuprofeno, naproxeno — primeira linha para dor aguda com componente inflamatório.
- Analgésicos simples: paracetamol e dipirona para controle de dor basal, com menor risco gastrointestinal.
- Miorrelaxantes: ciclobenzaprina ou carisoprodol quando há espasmo muscular associado.
- Corticosteroide oral: ciclos curtos de prednisona para inflamação aguda intensa, com uso criterioso.
- Neuromoduladores: gabapentina ou pregabalina são indicados quando há componente neuropático predominante (queimação, formigamento).
Infiltração epidural
A injeção de corticosteroide no espaço epidural oferece alívio em 50 a 70% dos pacientes com ciatalgia intensa, permitindo a progressão da fisioterapia. Geralmente considerada após 4 a 6 semanas de tratamento conservador sem resposta adequada.
Cirurgia: quando é necessária?
A intervenção cirúrgica é indicada em cerca de 10% dos casos, nas seguintes situações:
- Síndrome da cauda equina (indicação de emergência)
- Déficit neurológico progressivo, especialmente fraqueza muscular crescente
- Dor incapacitante refratária a 6 a 12 semanas de tratamento conservador adequado
- Comprometimento funcional grave que impede atividades básicas da vida diária
Os procedimentos mais realizados são a microdiscectomia — ressecção do fragmento herniado sob microscópio cirúrgico por pequena incisão — e a discectomia endoscópica, técnica minimamente invasiva com menor trauma tecidual. A taxa de sucesso da microdiscectomia para alívio da dor ciática é de 85 a 90% em séries cirúrgicas bem selecionadas.
Prevenção e prognóstico a longo prazo
O prognóstico da hérnia de disco é favorável na maioria dos casos. Estudos longitudinais de imagem demonstram que o material herniado sofre reabsorção espontânea pelo organismo em 6 a 18 meses em grande parte dos pacientes, com redução proporcional dos sintomas.
Medidas preventivas com base em evidências incluem:
- Manutenção de peso corporal saudável — cada quilograma excedente aumenta proporcionalmente a pressão intradiscal
- Prática regular de atividade física, com ênfase em fortalecimento da musculatura paravertebral e do core abdominal
- Técnica correta para levantamento de cargas: agachar com os joelhos, manter a coluna em posição neutra
- Ergonomia adequada no ambiente de trabalho: altura da cadeira, posicionamento do monitor, apoio lombar
- Pausas ativas a cada 45 a 60 minutos em atividades que exijam posição sentada prolongada
- Cessação do tabagismo: a nicotina reduz o fluxo sanguíneo para os discos, acelerando sua degeneração
Revisor técnico do Atlas da Coluna. Todo artigo é avaliado quanto à precisão clínica, atualidade das referências e adequação das orientações ao público leigo antes da publicação.